Planos de saúde: onda de cancelamentos unilaterais impacta autistas

Planos de saúde: onda de cancelamentos unilaterais impacta autistas



Desde o final de Abril, os beneficiários do plano de saúde foram surpreendidos por mensagens informando o cancelamento unilateral do serviço e com a orientação de que deverão encontrar uma nova operadora até o dia 31. A situação, que já seria preocupante para quem faz monitoramento de rotina e tem rede referenciada conhecida, tem causado angústia em pessoas que requerem cuidados contínuos e terapias específicasno caso de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e doenças raras. Em nota, as operadoras informam que a interrupção ocorre “de forma legal” e se baseia em critérios técnicos. Também são mencionados contratos que geram impactos financeiros (leia mais abaixo).

A rescisão de contratos de planos de saúde está previsto em uma lei de 1998 e nas regras de Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável pela regulação do setor. A portabilidade prevê que o novo plano não precisará cumprir novos prazos de carência.

No caso dos planos individuais e familiares, hoje raros, o cancelamento só poderá ocorrer em casos de inadimplência ou fraude.

A nível colectivo, tanto empresarial como associativo, a história muda. Toda a carteira de beneficiários poderá ser excluída caso haja solicitação da pessoa jurídica que contratou o benefício e as regras de suspensão deverão estar previstas no contrato, desde que haja comunicação com 60 dias de antecedência. Os termos do contrato têm regido decisões de interrupção do atendimento à saúde e têm afetado usuários de grandes planos, como Amil e Unimed Nacional.

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“Na tentativa de encontrar a viabilidade financeira dos contratos, as operadoras excluem esses beneficiários, criando um espaço de discussão dessa prerrogativa prevista em lei, mas que vai contra a concepção da sociedade sobre o acesso à saúde”, afirma Nycolle Araújo Soares, CEO da Lara Martins Advogados e especialista em Ética e Compliance na Saúde.

Reclamações de cancelamento

A partir do ano passado, houve um salto no número de reclamações unilaterais de cancelamento registradas na ANS. Segundo o órgão, entre janeiro e abril deste ano foram feitas 5.888 denúncias, um crescimento de 30,9% em comparação com o mesmo período do ano passado. Ao longo de 2023, foram registradas 15.279 reclamações. Em 2022, eram 11.096.

As reclamações também se espalharam pela esfera política. Foram protocolados dois pedidos de instauração de CPI contra planos de saúde após a onda de cancelamentos e denúncias de casos que chegou aos parlamentares da Câmara dos Deputados e da Assembleia Legislativa de São Paulo. Na Câmara, pelo menos duas audiências públicas debateram o tema nas últimas duas semanas.

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Mães relatam desespero

A vendedora Cristiane Ferraz, 46, se juntou a um grupo de pais nesta quarta-feira, 22, para protestar na sede da Amil, em São Paulo. Mãe de Lorenzo, de 12 anos, ela diz que paga R$ 5,3 mil de plano de saúde e, no dia 30 de abril, recebeu notificação de que o auxílio seria cancelado.

A criança, diagnosticada com doença de Huntington (coreia de Huntington), uma condição rara que afeta as células nervosas do cérebro, necessita atendimento domiciliar, dieta enteral e ventilação mecânica. Ela tem postado vídeos nas redes sociais apresentando o problema. “Estou desesperada. É uma vergonha estarmos vivendo o Mês das Mães”, disse ela, em uma delas.

Diante da situação, ela recorreu à Justiça e obteve liminar garantindo a manutenção do sustento vital para o filho. “A liminar foi a nosso favor, mas a Amil não está cumprindo. É por isso que estou aqui protestando.”

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Dificuldades com tratamentos

Mesmo os pacientes que não tiveram seus planos cancelados enfrentam dificuldades no acesso às terapias e na obtenção de reembolsos. No caso de pessoas que convivem com autismo, essa situação tem se tornado comum.

Desde 2021, a ANS implementa medidas para garantir assistência na rede suplementar a pacientes com transtornos globais do desenvolvimento, incluindo TEA. Além do acesso ilimitado a sessões com psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos – liberados para todos os beneficiários a partir de 2022 –, métodos considerados padrão ouro para tratamento, como a terapia ABA, são contemplados pelos planos.

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A anestesista Fernanda Bourroul, 36, tem um filho de 5 anos com diagnóstico de autismo e o tratamento com terapia ABA custa R$ 13 mil por mês. Até janeiro deste ano, ela recebia o reembolso após preencher o pedido com a nota emitida pela clínica onde a criança é atendida. Agora, já começou a coleta de comprovantes de pagamentos, relatórios de notas e laudos médicos, embora seja um diagnóstico que não mudará com o tempo.

Com essa mudança, o processo ficou lento, Fernanda não recebeu reembolso em 30 dias e não tem mais condições de pagar a clínica. O resultado é que o filho teve que interromper o tratamento. “Depois de um mês sem terapia, ele começou a morder a própria mão quando estava chateado, chegando a causar uma lesão.”

Presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo (OAB-SP), a advogada Camilla Varella diz que familiares conseguiram liminares, que nem sempre são cumpridas, mas os problemas vão além das burocracias que atrasem o pagamento do reembolso.

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“O problema do reembolso afeta vários planos. Amil, Bradesco. Mas também temos clínicas que não são credenciadas e o plano oferece clínicas da rede que não oferecem, de fato, tratamento conforme orientação médica, algumas delas atendem pessoas sem especialização.”

Em caso de cancelamento, o maior medo de mães e pais é não conseguir encontrar uma nova operadora que aceite pacientes. “Pela ANS eles são obrigados a cumprir, mas os planos são rejeitados. Eles não querem mais pessoas autistas, porque o tratamento é caro.”

Operadoras afirmam que cancelamentos não têm natureza discriminatória

Em nota, a Amil informou que a suspensão dos planos coletivos de adesão ocorreu “dentro da mais estrita legalidade” e que o medida atingiu 1% dos beneficiárioso que representaria cerca de 30 mil usuários.

“A decisão se deve ao fato de que tais contratos, negociados pelas administradoras de benefícios diretamente com as entidades profissionais, com a intermediação de corretores, apresentam há vários anos uma situação de extremo desequilíbrio entre receitas e despesas, a tal ponto que não vemos a possibilidade de reajuste viável para corrigir esse grave problema”, informou.

Segundo a empresa, mais de 98% das pessoas afetadas pelo cancelamento não estão “hospitalizadas ou em tratamento médico que garanta a sua sobrevivência”.

A Unimed Nacional destacou ainda que os cancelamentos levaram em consideração “estudos de aspectos técnicos e econômico-financeiros, que buscam o equilíbrio entre as relações cliente/operadora, bem como garantem um atendimento de qualidade voltado ao coletivo”.

A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), entidade que representa 13 grupos de operadoras de planos, afirmou que as rescisões unilaterais “são comunicadas previamente aos contratantes e nunca são feitas de forma discricionária, discriminatória ou com a intenção de restringir o acesso das pessoas a tratamentos.”



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