Condenados na Operação Lava-Jato de volta à política


Ex-presidente da Câmara e condenado na Lava-Jato, Eduardo Cunha pretende voltar ao cenário político. (Foto: Reprodução)

Dez anos após o início da Operação Lava-Jato, a força-tarefa – que chegou a ser considerada o maior cerco a políticos suspeitos de desvios de recursos públicos da história – acumula derrotas nos mais altos tribunais do país. Políticos e empresários tiveram suas condenações anuladas e, aos poucos, já traçam estratégias para retornar à vida pública.

É o caso do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PRD-SP) e do ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB), atualmente deputado federal.

Símbolo do combate à corrupção de políticos e empresários bilionários, a Lava-Jato e as investigações abertas durante as fases da operação possibilitaram a realização de 120 denúncias, mais de 500 denunciados, 174 condenados e a devolução de R$ 4,3 bilhões aos cofres públicos.

Sérgio Cabral

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro, aguarda o resultado de uma série de recursos em processos em que é acusado de, entre outros crimes, corrupção e lavagem de dinheiro, por uso de tornozeleira eletrônica. Em março deste ano, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) anulou três condenações da Lava Jato contra o ex-chefe do Executivo fluminense. As sentenças totalizaram cerca de 40 anos de prisão.

Enquanto aguarda a soltura, Cabral vem atuando nos bastidores da política carioca. Com anos de experiência nos poderes Legislativo e Executivo – foi deputado estadual por dois mandatos, governador por sete anos e senador por quatro anos – hoje atua como consultor político. Um dos clientes é o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), alvo de um pedido de impeachment no Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ).

Eduardo Cunha

Em maio do ano passado, a Segunda Turma do STF decidiu anular uma das condenações do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha na Operação Lava-Jato, após considerar a Justiça Federal incompetente para julgar o caso. Agora, cabe aos juízes eleitorais analisar as denúncias contra o ex-presidente da Câmara por crimes relacionados à esfera eleitoral.

Sem mandato, o ex-presidente da Câmara mantém influência nos bastidores da política carioca e já conquistou aliados na Secretaria de Habitação da prefeitura do Rio e na RioLuz e na IplanRio, duas empresas públicas.

Cunha também atuou na articulação na Câmara pela libertação do deputado Chiquinho Brazão (sem partido-RJ). O ex-presidente da Câmara fez lobby para tentar reverter a prisão de Brazão, denunciado ao lado do irmão, o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio (TCE-RJ) Domingos Brazão e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa, como aqueles que ordenou a morte da vereadora Marielle Franco.

Outro plano de Cunha é voltar a ocupar uma cadeira na Câmara. Ele pretende concorrer ao cargo nas eleições de 2026. “Com certeza estarei nas urnas em 2026, só não sei onde. Não sei se será São Paulo, Rio de Janeiro e para qual festa será ainda”, disse.

Jose Dirceu

Esta semana, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) extinguiu, por 3 votos a 2, a pena aplicada ao ex-ministro José Dirceu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Operação Lava-Jato. Ele foi condenado a 8 anos e 10 meses de prisão pela Justiça Federal no Paraná. A condenação foi assinada pelo então desembargador Sérgio Moro e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Com a decisão do STF, o ex-ministro está mais perto de recuperar os direitos políticos. As condenações criminais o impedem de disputar eleições, por causa da Lei da Ficha Limpa. Uma possível candidatura dependerá de análise da Justiça Eleitoral. Hoje com 78 anos, que completou em março, ele já declarou que pretende concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026.

“Tive meu mandato cassado por motivos políticos e sem provas. Sofri processos kafkianos para me afastar da vida política e institucional do país. Seria justo voltarmos à Câmara dos Deputados, e a decisão do STF nos leva nessa direção”, disse José Dirceu em nota à imprensa.

Beto Richa

O ex-governador do Paraná Beto Richa, atualmente deputado federal, que foi preso duas vezes em investigações de corrupção quando estava no cargo, é pré-candidato a prefeito de Curitiba. Ele cobra o retorno ao Executivo curitibano e chegou a conversar com o PL sobre mudar de partido e disputar a eleição para o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As ações judiciais contra Richa totalizam R$ 42,5 milhões em supostas propinas relacionadas a contratos de concessão de rodovias. Reviravoltas nos casos, que não foram julgados, porém, favorecem a possível volta do tucano. Em fevereiro, por exemplo, o ministro Gilmar Mendes, do STF, enviou o inquérito à Justiça Eleitoral por considerar que havia suspeita de caixa dois.