Chuvas ligadas ao El Niño e à mudança climática arrasam o Sul do Brasil


Milhares de pessoas foram afetadas pelas fortes chuvas que assolaram o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. A Defesa Civil do estado confirmou 78 mortes, outros 105 desaparecidos e 175 feridos.

Quase 19 mil pessoas ficaram desalojadas, mais de 116 mil ficaram deslocadas e quase 850 mil foram afetadas em 341 municípios.

© Agência Brasil/Gilvan Rocha

Quase 19 mil pessoas ficaram desabrigadas, mais de 116 mil ficaram deslocadas e quase 850 mil foram afetadas em 341 municípios

Apoio à população afetada

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, OMM, a catástrofe no Brasil, bem como as inundações em curso na África Oriental, destacam a necessidade de uma resposta mais integrada ao El Niño e aos impactos das alterações climáticas.

O período entre o final de abril e o início de maio de 2024 ainda é influenciado pelo El Niño. O fenômeno, responsável pelo aquecimento das águas do Pacífico, ajudou a bloquear frentes frias e a concentrar áreas de instabilidade no Rio Grande do Sul.

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados, ACNUR, está a agir em conjunto e coordenada com o governo estadual e parceiros para responder à crise. Uma dessas organizações é a Aldeias Infantis SOS, que também teve seus empreendimentos afetados pela enchente, segundo relato do gestor territorial da organização no Rio Grande do Sul, Enéas Palmeira Machado.

“Preciso trazer um relatório sobre a situação das Aldeias Infantis no Rio Grande do Sul. No estado, atuamos em três programas, que ficam nas cidades de Santa Maria, Santo Antônio da Patrulha e Porto Alegre. Infelizmente, o Programa Porto Alegre foi o mais atingido porque está submerso. No local, que fica no bairro Sarandi, atendemos 42 crianças e seis adultos porque trabalhamos com famílias também, todos foram transferidos, estão bem e seguros. Neste momento, nosso propósito é pensar no bem-estar deles e também na segurança dos nossos colaboradores.”

O ACNUR também trabalha com associações de diferentes nacionalidades para que informações essenciais possam chegar às pessoas em situação de risco, em diferentes idiomas, como crioulo, espanhol, francês e inglês.

Morador da área afetada mostra impacto das chuvas no Rio Grande do Sul

Efeito da crise climática

A diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Inger Andersen, afirmou em suas redes sociais que é “devastador ver enchentes catastróficas e letais no sul do Brasil”.

Ela expressou solidariedade com as pessoas afectadas e que perderam entes queridos e disse que “do Brasil ao Quénia e à Tanzânia, a natureza clama para que enfrentemos a crise climática”.

Uma nota do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, diz que a agência “simpatiza com a dor daqueles que perderam as suas famílias, as suas casas e sofrem as consequências desta catástrofe”.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva analisa a devastação após as enchentes em Porto Alegre, no sul do Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva analisa a devastação após as enchentes em Porto Alegre, no sul do Brasil

Resgate e novo alerta

As autoridades brasileiras resgataram 1.000 pessoas por meio de operações de resgate e emergência, conforme informou a Defesa Civil do Rio Grande do Sul. O presidente brasileiro Lula da Silva percorreu as regiões mais afetadas e anunciou um pacote de medidas emergenciais para ajudar as vítimas.

As imagens mostraram a enorme extensão das inundações. O aeroporto da capital Porto Alegre foi fechado, com ligações de transporte e corte de energia.

O serviço meteorológico e hidrológico nacional do Brasil, Inmet, emitiu outro alerta vermelho para tempestades no dia 6 de maio, com chuvas fortes e trovoadas moderadas localizadas e um risco hidrológico muito elevado. As condições também estão afetando o norte do Uruguai.

Por que as chuvas foram tão fortes?

Grande parte do Rio Grande do Sul foi atingida por chuvas fortes e persistentes desde 27 de abril, segundo o Inmet. Em algumas regiões, especialmente em amplos vales centrais, planaltos, encostas de montanhas e áreas metropolitanas, os volumes de precipitação ultrapassaram os 300 milímetros em menos de uma semana. No município de Bento Gonçalves, por exemplo, o volume chegou a 543,4 mm.

Porto Alegre recebeu 258,6 mm de chuva em apenas três dias. Este valor corresponde a mais de dois meses de chuva quando comparado com a média Climatológica Normal de Abril. Além dessa condição, a temperatura bem mais elevada do Oceano Atlântico Sul, próximo à faixa equatorial, também contribui para a umidade, intensificando as chuvas.

O transporte de umidade da Amazônia e o contraste térmico com o ar mais quente do norte da Região Sul, bem como o ar mais frio do sul do Rio Grande do Sul, também ajudaram a fortalecer as tempestades, disse o Inmet.

O Relatório sobre o Estado do Clima na América Latina e no Caribe 2023 da OMM, a ser divulgado em 8 de maio, examinará os impactos do El Niño e das mudanças climáticas na região no ano passado. O tema também esteve no topo da agenda dos encontros entre a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, e líderes governamentais do Chile, de 1º a 2 de maio.



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