As lições da história | VEJA

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“Suprima notícias falsas, rumores sediciosos, identifique seus autores!” leia uma proclamação do rei Henrique VII da Inglaterra em 1487. Parece familiar? Então é. Quando olho para o pânico actual em torno da “desinformação”, em torno de todos os riscos incríveis que rodeiam o “discurso de ódio” e a “desestabilização”, lembro-me de quantos anos estamos a envelhecer. No século seguinte, a Inglaterra criou um sofisticado sistema de censura de livros, incluindo a terceirização do trabalho para a guilda de editores e impressores. O pânico veio da imprensa, daquela invenção diabólica de Gutenberg, que infestou a Europa de livros e incendiou a cabeça das pessoas. Daí a necessidade de proibir “certos livros e tratados heréticos, impressos diariamente por pessoas escandalosas, maliciosas e cismáticas”. Na prática, lidando com a “desordem informacional” de 500 anos atrás. O que só me lembra aquela famosa frase de Talleyrand: não esquecemos nada, não aprendemos nada.

O pânico tomou conta da Igreja. A Reforma e as suas infinitas seitas eram o “extremismo” a ser extirpado, para que a Europa pudesse ser “recivilizada”. Leão X tomou a “dupla verdade” como alvo. A tese de que qualquer ideia poderia ser falsa, segundo a Igreja, e ainda verdadeira, segundo alguma filosofia. Seu maior medo: os filósofos, com sua lógica infernal, e os poetas, com seu encantamento. Era necessário limpar literalmente a Europa “infectada” por novas ideias. A igreja estava certa. Mas ele perdeu. No final, a heresia foi quem ganhou o jogo. E a modernidade, filha desta vitória. Não é por acaso que o primeiro livro moderno que faz uma clara defesa da tolerância, de Sebastian Castellio, em 1554, se chama “Sobre os Hereges”. Ele e sua pergunta prosaica: “quem professa uma doutrina não é ele mesmo um herege para todas as outras doutrinas?” Cem anos depois, John Milton escreveria a sua longa carta ao Parlamento inglês, a Areopagitica, pedindo o fim da censura aos livros. Ele e sua terrível ideia de que a verdade se quebrou em mil pedaços, que só seria recomposta no dia do julgamento. E que seria um erro dar a alguém o poder de censura prévia. John Milton era um poeta. A igreja estava certa.

Essas coisas me vêm à mente quando leio sobre podridão cerebrala palavra do ano escolhida por Dicionário Oxford. A expressão é dura, significaria algo como “cérebro apodrecido”, e foi usada pela primeira vez por Henry Thoreau, escrevendo em alguma noite fria em Walden Lake. Um cara, aliás, que não queria regular a vida de ninguém. Seu significado é duplo: um deles é a sobrecarga de informações. A civilização do excesso. De imagens, de ruído, de “idiotas de aldeia transformando-se em sábios universais”, na triste frase de Umberto Eco. A segunda é o impacto que tudo isso tem na nossa maneira de pensar. É aqui que a solidão aumenta, especialmente entre os muito jovens. A captura de atenção por bugigangas digitais. E a dispersão, que faz com que nossos alunos tenham dificuldade de ler um livro ou mesmo de prestar atenção.

“O país aceitou uma estranha forma de democracia tutelar”

É evidente que a internet e as redes causaram danos muito particulares à nossa cultura. É assim, cá entre nós, a cada nova revolução tecnológica no mundo da informação. A cada ciclo, entre em pânico. O reconhecimento de que há ganhos claros, mas a sensação de que o mundo saiu do controle. Foi assim com a televisão, a “cultura de massa”, a “civilização do espetáculo” e sua frivolidade, tão bem descritas no melancólico livro de Vargas Llosa. E imagino que isto deve ter sido ainda pior em algum momento do século XVI, quando a guerra religiosa literalmente tomou conta da Europa. A grande “insanidade” que levou tantas pessoas à fogueira. Hoje não queimamos ninguém. Mas a podridão cerebral está aí, firme e forte. A ideia que sempre nos assombrou, mas que agora tem uma palavra a dizer.

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A obsessão do nosso tempo não é a censura dos livros. É o controle das redes. O desejo prosaico de livrar o mundo da infecção das grandes tecnologias e dos seus algoritmos “sediciosos”. É precisamente esta discussão, que diz respeito aos direitos fundamentais na nossa democracia, que foi decidida, estas semanas, pelo Supremo Tribunal. O ministro Dias Toffoli deu seu longo voto listando doze categorias de riscos ou crimes que deveriam servir de base para que as próprias plataformas assumissem a responsabilidade legal pela censura. Critérios definidos pelo Estado, censura realizada pela nossa moderna corporação de editores. Dias atrás, o ministro disse que “um direito individual não pode funcionar como salvaguarda para condutas ilícitas”. E então disse: “Podemos entender que o que aquele PM fez na ponte é liberdade de expressão?” Ele se referia àquele soldado que empurrou uma pessoa de uma ponte em São Paulo, e a pergunta me pareceu totalmente absurda.

Eu fiz um experimento. Perguntei à minha IA se uma declaração como essa do ministro seria banida das redes, das plataformas, se as novas regras criadas pelo próprio ministro para o Marco Civil da Internet já estivessem em vigor. Resposta da IA: “Provavelmente sim”. A frase enquadra-se em três categorias: “Incitamento à violência e desinformação sobre a atuação das autoridades” e, portanto, um risco para as instituições. “Incitação contra um grupo vulnerável”, que pode ser o sujeito ou os soldados. Ou podem ser simplesmente vistas como notícias falsas e bastante ofensivas para aqueles que defendem a liberdade de expressão. Me chamou a atenção que a resposta estava preenchida com “depende do contexto”, “depende da análise”, “das notificações”. Resumindo: um dos nossos direitos essenciais migrou para o mundo do “depende”. No final, perguntei se a frase seria proibida se tivéssemos algo como a Primeira Emenda da Constituição Americana. Resposta rápida: “Não”. Mas quem sabe, talvez seja um viés “madisoniano” na minha IA.

O país está entrando em território perigoso. Um tema como este deveria estar sujeito ao escrutínio público, à divergência e à pressão e aos argumentos da democracia. No Congresso. E a linha que adoptamos vai contra o ensinamento moderno: sempre que os direitos de expressão foram sujeitos a critérios genéricos, dependentes do arbítrio dos detentores do poder, perdeu-se a liberdade. Dito isto, não vejo surpresas. O país há muito que aceitou uma estranha forma de democracia tutelar. Aceitou a censura prévia, como rotina, o banimento de jornalistas, a quebra da imunidade parlamentar. Lemos agora que o inquérito às fake news, aberto em 2019, foi novamente prorrogado, para 2025, com os argumentos habituais. Dois anos depois das últimas eleições presidenciais, a lógica do medo, da urgência, permanece intacta. O apelo à exceção converteu-se em regra. O que nunca deveria acontecer se estivéssemos, de facto, preocupados com o Estado de direito. E talvez disposto a aprender com algumas lições da história. O que definitivamente não parece ser o caso.

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Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem necessariamente a opinião de VEJA

Publicado em VEJA em 13 de dezembro de 2024, edição nº. 2923



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