Museu da Diversidade Sexual reabre em SP com história de língua travesti



Em abril de 2022, o Museu da Diversidade Sexual se preparava para comemorar dez anos de existência, mas, de repente, foi interditado por uma liminar que questionava a administração do Instituto Odeon. A ação do deputado Gil Diniz (PL), autodenominado “carteiro reage”, questionou o iminente projeto de reforma avaliado em 9 milhões de reais e conseguiu interditar os equipamentos por quatro meses, mas não durou. Em setembro do mesmo ano, a Justiça suspendeu a decisão por unanimidade e permitiu a retomada dos planos do aparelho, que reabriu suas portas por um breve período, para depois fechá-las novamente — desta vez por um bom motivo. Nesta quarta-feira, 29, a instituição finalmente volta a receber o público — dias antes da Parada LGBT de 2024 — em um espaço reformado e ampliado, ainda dentro da estação República do metrô, em São Paulo. Dos simples 100 metros quadrados do passado, cresceu para 540, dentro dos quais exibe duas exposições gratuitas: Pajubá: a hora e a vez do close Isso é Artes Dissidentes: o céu que brilha no chão.

De cara nova, o espaço agora recebe seus visitantes com um hall de entrada pomposo e excêntrico, típico da noite paulistana. O tapete fúcsia brilhante e as paredes prateadas reflexivas, no entanto, logo dão lugar a um espaço expositivo comedido, onde simples estandes de madeira permitem que obras, artefatos e recortes sejam o foco das atenções.

Com curadoria de Amara Moira e Marcelo Campos, Pajubá é o maior destaque e remonta aos caminhos da linguagem criada pelas mulheres trans e travestis durante a Ditadura Militar, código “secreto” utilizado para proteger o grupo, principalmente entre seus representantes envolvidos na prostituição. Partindo de identidades indígenas e figuras históricas como Maria Quitéria, o conjunto exposto tece uma linha contínua na história brasileira para contrapor o apagamento da sigla, e tem pouco interesse em higienizar ou romantizar os reveses do caminho, evidenciando formas de autodefesa , a imprensa registra a homofobia e as feridas ainda abertas da crise da AIDS na década de 1980, imortalizadas por artistas expostos como Leonilson e cartilhas com textos marcantes — como “Traveca Esperta Só Transa Com Camisinha na Neca”. Olhando para os ecos do momento no Brasil hoje, a exposição também destaca obras contemporâneas como Alta costura de preservativosvestido inteiramente tecido com camisinhas vencidas ou danificadas da artista Adriana Bertini.

Já menores em tamanho e duração, Artes Dissidentes é sutilmente dividido de Pajubá por muros provisórios e representa a rotina da comunidade paulista. Em sua plataforma digital, o museu também exibe algumas exposições virtuais e promove um clube do livro e encontros mensais pela cidade, chamados de “Rolezinhos LGBTQIA+”, nos quais representantes da instituição orientam os visitantes por pontos importantes da história da sigla. Em entrevista com OLHARo diretor-presidente do Instituto Odeon, Carlos Gradim, fala sobre a revitalização do MDS, os planos para o futuro do museu e como o novo capítulo da instituição busca atingir outros públicos:

Quais são as suas expectativas para o futuro do museu neste momento? As expectativas são as melhores possíveis. Durante visitas de imprensa e convidados, pudemos sentir o quanto as novas exposições afetam o público de forma emocional. O nosso desejo sempre foi criar um museu que pudesse estar fora dos muros e que dialogasse com toda a sociedade. Houve também um grande apoio de nomes da dramaturgia e do Senado Nacional quanto à importância da reabertura do museu, e a própria ampliação do espaço permite agora uma maior diversidade de narrativas. No caso de Pajubá, temos uma cronologia histórica junto com trabalhos artísticos realizados para a própria exposição. Esperamos que a exposição inspire um sentimento de conversação e respeito pela diversidade humana e de género.

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Como o museu planeja alcançar públicos além da bolha das siglas? Este é um foco nosso, central no plano estratégico. Trabalhamos, por exemplo, com a ONG “Mães Pela Diversidade”, que nos traz um contingente de mulheres que, às vezes, até têm filhos que não se identificam com nenhuma identidade dissidente. Procuramos sempre representantes da sociedade civil para proporcionar espaços de aprendizagem. Este é talvez o nosso maior desafio.

Hoje a equipe do museu sente maior estabilidade e segurança diante das críticas externas? Não creio que a sigla hoje seja um local de tensão contra o resto da sociedade. Considero até essa separação preconceituosa, no sentido de que a história LGBT não está separada dos negros e de outras minorias. Nesse sentido, a exposição em si é muito interessante, já que Pajubá se inspira nas linguagens do terreiro — que não utilizavam artigos e, portanto, eram naturalmente neutras. Somos um espaço de diversidade e nosso papel é lidar com todos os públicos. Continuamos abertos a quem quiser nos conhecer.

Além do pajubá, o museu utiliza linguagem neutra em seus textos. Qual a importância dos equipamentos para promover essa mudança? Se refletirmos a comunidade LGBT+, temos que representá-la aqui sem reservas. O Pajubá, por sua vez, surgiu como linguagem de proteção e hoje é um recurso artístico e estético. A língua e a literatura, portanto, também se adaptam. É claro que os gramáticos têm suas dúvidas e cada pessoa tem uma perspectiva, mas a linguagem neutra é um movimento contínuo de transformação que, via de regra, ocorre dentro da sociedade. A linguagem é flexível, mutável e passou por diversas transformações, algumas das quais estão registradas aqui no museu. A utilização de uma linguagem neutra, então, cria até diálogos para que os visitantes compreendam as suas implicações políticas e sociais e para que as mudanças ocorram não através da violência ou do ódio, mas através da conversa, entre outras possibilidades.

Serviço:

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Museu da Diversidade Sexual
Estação República do Metrô, mezanino
De terça a domingo, das 10h às 18h
Entrada gratuita

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