E 52 anos se passaram desde que o escritor Dalton Trevisan concedeu a sua última entrevista formal, em agosto de 1972. Aos 47 anos e já com um trabalho consolidado e reconhecido, disse ao jornal Estadão frases como: “O escritor é um ser amaldiçoado. O escritor é uma pessoa em quem não se pode confiar. Chega um amigo e me conta minhas maiores dores: ouço com atenção, mas só estou coletando material para outra história. E eu sei disso imediatamente.” E também deu a pista que sairia de cena: “Muitas vezes, esse conhecimento sobre a vida privada do autor relega a própria obra a um segundo plano. Eu não sou um sujeito, o autor nunca é um sujeito. Notícias é o seu trabalho. Pode ser discutido, interpretado, contestado.”
O resto é história. Trevisan, que morreu nesta segunda-feira, 9, aos 99 anos, tornou-se avesso à imprensa e às aparições públicas, não se deixou fotografar e cultivou ao seu redor a fama que lhe valeu o epíteto, o Vampiro curitibano — título do livro homônimo publicado em 1965, uma de suas pequenas obras-primas. Não abandonou a escolha mesmo quando recebeu o Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa, em 2012. Não compareceu à cerimónia em Lisboa, foi representado por uma das suas editoras. O autor desapareceu dos olhos do público, mas não desapareceu. Cultivou amizades através de reuniões privadas, telefonemas e centenas (talvez milhares) de cartas. Sua escolha foi estética, não um ato anti-social de alguém impróprio para viver em sociedade. Ele privilegiou a mão de obra em vez da devoção ao autor.
Numa era impulsionada pelas redes sociais, altamente mediática e com um culto às celebridades (se não com celebridades que se veneram a si mesmas), muitos autores entraram neste jogo. Mantêm suas redes muito ativas, participam de inúmeros eventos e feiras, escrevem newsletters, recomendam leituras e interagem com seus leitores. Não há aqui nenhum juízo de valor, apenas a observação de duas opções distintas. Enquanto alguns aparecem para divulgar suas obras, Dalton Trevisan se escondia para fortalecer as suas — e o resultado disso foi a criação de um modus vivendi que muito contribuiu para a divulgação de seus livros.
Sua maior inspiração para se mudar foi, claro, o americano JD Salinger (1919 – 2010), autor de O apanhador no campo de centeio. Trevisan admirava tanto os livros quanto o estilo de vida de Salinger, talvez o escritor recluso mais famoso da literatura mundial. Da obra do americano, o curitibano admirava suas frases enxutas, o uso constante da oralidade, palavras simples e gírias, além do vigor juvenil que imprimia em seus personagens. Salinger escreveu grande parte de sua obra em uma cabana rural sem aquecimento, água encanada ou banheiro. Trevisan também tinha cabana própria em uma zona rural próxima à capital paranaense, mas desistiu da aventura pelas dificuldades logísticas de ida e volta.
A solução encontrada foi construir um refúgio em seu quintal. Em sua casa na Rua Ubaldino do Amaral, número 487, numa esquina movimentada do centro de Curitiba, Vampiro gostava de escrever num pequeno prédio que construíra no amplo quintal. A mobília consistia em uma cadeira, uma mesa e uma máquina de escrever. Sua casa era modesta, mas o terreno era enorme. Uma área de 1.780 metros quadrados, com galinheiro e mais de 30 cedros plantados pelo escritor. As árvores formavam uma cortina natural bloqueando olhares curiosos e garantindo a privacidade.
Dalton Trevisan morou lá de 1953 até 2021, quando se mudou para um apartamento no mesmo prédio da amiga, editora e assistente Fabiana Faversani. Hoje é ela quem cuida da reedição da sua obra, que no próximo ano sairá da editora Record para ser publicada pela Todavia. Desde a sua estreia em 1945, com Sonata ao Luarpublicou mais de 50 livros de contos e antologias. Foi traduzido para espanhol, inglês, alemão, sueco, dinamarquês, polonês e holandês. Ele é admirado por muitos escritores que se derretem com a aparente simplicidade e poder de seu trabalho.
O argentino César Aira, frequentemente indicado ao Prêmio Nobel, é seu fã. Em entrevista, ele contou que em 2003 escalou o muro da casa de Trevisan em Curitiba para pelo menos tentar ver o autor. “Como o muro não era muito alto, consegui subir e dar uma olhada”, lembra Aira. “A grama estava bem cortada e havia um homem. Eu o vi por apenas um momento. Poderia ser Dalton? Ou o jardineiro? Eu nunca soube”, disse ele. “Admiro sua prosa absurda, antídoto para tanto barroquismo inútil, sua desconfiança no casamento e seu amor pela humanidade”, elogia.
“Mestre do conto curto e cruel”
Coube ao crítico literário Antonio Candido, mago da concisão e do didatismo em seus escritos, apresentar uma das melhores definições da obra de Trevisan: “mestre do conto curto e cruel, criador de uma espécie de mitologia sua”. cidade de Curitiba”. O trecho está no ensaio A Nova Narrativade 1979.
Ao longo de sua carreira, Trevisan trabalhou como artesão, cortando, polindo e reduzindo seu trabalho. Cada vez que lia seus textos, ele os encurtava. Seu objetivo era a brevidade precisa e vigorosa. Nesse sentido, ele releu, cortou e reeditou inúmeros de seus mais de 700 contos. A crítica e professora da USP Berta Waldman, autora de De Vampiro a Cafajeste — Uma Leitura da Obra de Dalton Trevisandestaca que para o autor reescrever é um “gesto vital”. “O vampiro não está apenas no conteúdo, mas no próprio procedimento literário. O gesto vital de Dalton é o procedimento de repetição”, escreve ela em seu livro. “O vampiro ganha vida, evitando a morte, reedição após reedição, sugando/abusando mais de seus supostos cadáveres: os textos já publicados”, completa.
O crítico também posiciona o autor dentro da pop art, pois ele “rouba uma linguagem – a imagem comum fabricada pelos meios de comunicação de massa –, também nos proporciona a repetição e cria uma obra dentro de uma linguagem propositalmente descuidada, que exige a habilidade de trabalhar com o recursos da linguagem e a paisagem da cultura popular”. Sua concisão meticulosa, seu vocabulário propositalmente simples e suas opções temáticas favorecendo a vida urbana e conjugal indicam que o vampiro tinha método e objetivos, sabia exatamente o que fazia.
Coerente até o fim
Apesar de ter contratos com grandes editoras, Trevisan nunca deixou de cultivar o seu lado outsider. De 1949 até o ano passado, publicou seus famosos “cadernos” de forma independente e em edição muito limitada. Hoje objetos cobiçados por pesquisadores e literatos, os cadernos são uma espécie de fanzine impresso em pequenas gráficas de Curitiba. Têm, em média, 50 páginas em papel sulfite dobradas ao meio. Nelas, o autor republicou suas histórias com ilustrações de seu acervo pessoal.
Durante décadas publicou mais ou menos seis cadernos por ano, que eram distribuídos gratuitamente em universidades, bibliotecas, bares e cafés de Curitiba. Alguns amigos receberam as guloseimas pessoalmente ou pelo correio. Em 2014, ano em que deixou de escrever textos inéditos, passou a editar seus cadernos com pequenas antologias de contos unidos por um tema comum.
Em 2023 publicou, também de forma independente, a antologia Pessoas de Curitibareunindo 69 contos. Os 350 exemplares desapareceram das livrarias de Curitiba. Também no ano passado reabilitou o seu primeiro livro Sonata ao Luaruma obra que ele renegou e proibiu sua reedição. Fiel ao seu estilo underground, escolheu uma pequena editora da capital paranaense, a Arte & Letra. Com tiragem reduzida, os livros, que não eram publicados desde 1945, esgotaram-se em uma semana.
Paralelamente aos contratos com grandes editoras, as edições independentes de seus cadernos e livros mostram um autor consciente de sua obra e engajado em sua postura estética. Tal consciência do próprio trabalho e do que ele representa é algo raro de se encontrar em qualquer área das artes. Dalton Trevisan foi um artesão das palavras e da sua própria carreira.
Fiel aos amigos, mantém, desde a década de 1940, intensa correspondência com Otto Lara Resende (1922 – 1992), Rubem Braga (1913 – 1990), (1935 – 2012), Antonio Candido (1918 – 2017), entre outros. Fiel ao seu ofício de escritor, saiu de cena para deixar no palco o seu trabalho, e não o culto à sua personalidade. Antes de abandonar a vida pública, declarou na sua última entrevista: “Quero ser julgado pelo que escrevo e não pela forma como vivo, pela forma como durmo, pelo que gosto de comer ao almoço. Qual é o sentido de saber mais?” Fiel aos seus leitores, ele deixou sua obra. Ela é o suficiente.
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