Senadores ligados à saúde querem retirar fumódromos do projeto que libera cassinos e bingos no Brasil

Senadores ligados à saúde querem retirar fumódromos do projeto que libera cassinos e bingos no Brasil


Desde 2011, lei proíbe criação de áreas reservadas a fumantes no Brasil

Foto: Freepik

Desde 2011, uma lei proíbe a criação de áreas reservadas para fumantes no Brasil. (Foto: Freepik)

Senadores médicos ou ligados à agenda sanitária querem retirar do projeto que permite o funcionamento de cassinos, bingos e Jogo do Bicho a previsão de que serão criadas salas para fumantes no país.

Na opinião desses parlamentares, a medida é considerada um “jabuti” – jargão comum no Congresso para alterações em projetos que incluam temas alheios ao assunto original.

Desde 2011, uma lei proíbe a criação de áreas reservadas a fumantes. A medida foi regulamentada em 2014.

Ao ser aprovado pela Câmara dos Deputados, o texto que regulamenta os jogos de azar incluiu dois dispositivos que contrariam a legislação vigente. Durante a votação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, os artigos foram mantidos pelos parlamentares.

Segundo o texto, “os estabelecimentos autorizados a operar jogos de cassino e bingo deverão possuir áreas reservadas a fumantes”. Presidente da CAS (Comissão de Assuntos Sociais) do Senado, responsável pelos debates sobre saúde, o senador Humberto Costa (PT-PE), que também é médico, chama o texto de “erro” e “insanidade”.

O parlamentar avalia que as áreas para fumantes concentram a exposição dos fumantes a componentes nocivos, mas ao mesmo tempo não oferecem proteção suficiente aos não fumantes.

“O Brasil desenvolveu uma estratégia de sucesso para combater o tabagismo e proteger as pessoas que entram em contato com o tabaco, com a fumaça. O fim da área de fumantes foi um avanço importante”, disse o parlamentar.

O senador declarou que apresentará uma emenda para retirar a medida do projeto e, caso não seja aprovada, pedirá ao presidente Lula que vete o dispositivo.

“É do interesse da indústria do tabaco que as pessoas possam fumar com mais facilidade. E é do interesse dos proprietários de casinos e bingos garantir que as pessoas não interrompam o jogo para fumar”, afirmou Costa.

Também médico, o líder do PSD, Otto Alencar (BA), classificou a recriação das áreas de fumantes como um “retrocesso”. “Isso vai facilitar e pode comprometer muito a sua saúde. Quantas pessoas morrem a cada ano de câncer de pulmão? A nicotina tem efeito cumulativo, causando diversas doenças que são muito ameaçadoras à saúde”, avaliou.

Outros dois parlamentares que integram o CAS, reservadamente, criticaram a medida e disseram que ela deveria ser retirada do texto durante a votação da proposta no plenário. Um deles defende a realização de audiência pública sobre o tema.

O relator do projeto no Senado, Irajá (PSD-TO), disse que este não é o principal ponto de discussão da proposta. “A área de fumantes é uma discussão que também deve ser considerada, obviamente. Precisamos nos preocupar com isso, restringindo cada vez mais a prática, o uso e o consumo de cigarros, sejam eles eletrônicos ou cigarros tradicionais. Mas esta agenda [da autorização dos jogos de azar] é uma agenda social e económica. Precisamos nos lembrar disso. Estamos tratando aqui do fortalecimento do turismo nacional, indústria que gera milhões de empregos no Brasil”, afirmou.

A presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Margareth Dalcolmo, avaliou que os aparelhos previstos na proposta representam um “atraso”. “Mais uma tentativa absolutamente sem sentido, injustificada e grotesca de recuperar qualquer liberdade deste hábito prejudicial”, disse o médico.

A proposta foi aprovada na semana passada pela CCJ do Senado, em votação acirrada, com 14 votos a favor e 12 contra. O texto enfrenta resistência no Congresso, principalmente dos parlamentares mais conservadores e também da bancada evangélica.