“Privatização de praias”: saiba o que são terrenos de marinha


Ambientalistas afirmam que o texto do novo projeto dá margem para a criação de espaços privados à beira-mar. (Foto: Divulgação)

A proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da exclusividade da União sobre terrenos marinhos, que foi tema de audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado esta semana, tem gerado debate nas redes sociais .

A proposta, que vem sendo defendida por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro após aprovação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), relator da matéria na Câmara, é criticada por ambientalistas, que acusam a iniciativa de “privatizar” os espaços costeiros .

Terra marinha

O artigo trata das chamadas terras marinhas, que se localizam nas praias e nas margens de rios e lagoas, além dos espaços que circundam as ilhas com águas ligadas aos mares. Atualmente as áreas pertencem à União e a proposta pretende transferir gratuitamente o imóvel para Estados e municípios, abrindo também a possibilidade de transferência para ocupantes privados mediante pagamento.

A definição de áreas marinhas está hoje prevista no decreto-lei nº 9.760, de 1946, que criou a Linha Média de Alto-Mar (LPM), vista como uma delimitação do fim da área marítima. Como parâmetro para definir até onde a água pode chegar, a regra usa como referência as marés máximas do ano de 1831. A partir daí é contabilizada uma área de 33 metros do mar em direção ao continente, chamada de terra marinha. As localidades não têm relação com a Marinha do Brasil.

Os imóveis construídos nesses terrenos possuem escritura, mas os moradores são obrigados a pagar um imposto anual à União sobre o valor do terreno. No regime fundiário, a propriedade do imóvel é partilhada entre a União e um particular (cidadão ou empresa). Este é dividido na proporção de 83% do valor do terreno para o cidadão e 17% para a União. Por conta dessa divisão, os ocupantes desses imóveis pagam atualmente duas taxas à União: o foro e o laudêmio.

Ambientalistas afirmam que o texto do novo projeto permite a criação de praias privadas, além de promover riscos à biodiversidade. Técnicos do governo também afirmam, reservadamente, que a PEC poderá permitir a privatização das praias.

Hoje, são os terrenos marinhos que impedem o encerramento das praias a entidades privadas. Como essa faixa também pertence à União, não é possível fechar o local, assim como os manguezais, por exemplo. Com a extinção do terreno marinho, o proprietário passa a ser o único proprietário do terreno. Dessa forma, é possível que ele feche o acesso ao mar.

O relator da matéria é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), favorável ao texto. Na sua opinião, salienta que a União ainda não demarcou todos os terrenos marinhos e, além disso, que muitas casas estão registadas em cartório mas foram sujeitas a demarcação pela União, “surpreendendo os proprietários”.

“Não nos parece justo que o cidadão diligente, de boa-fé, que adquiriu imóveis devidamente registados e, por vezes, localizados a poucas ruas de distância do mar, perca o seu imóvel ao fim de vários anos devido a um lento processo de demarcação. O facto é que o instituto da terra marinha, na forma como é actualmente regulamentado pelo nosso ordenamento jurídico, provoca inúmeras inseguranças jurídicas relativamente à titularidade dos edifícios”, defendeu.

Após a audiência pública, ele foi alvo de críticas e chegou a afirmar que a acusação de privatização do litoral era “fake news”.

A última vez que o assunto foi discutido pela CCJ foi em agosto do ano passado. Na ocasião, o senador afirmou que “o último levantamento da Secretaria do Patrimônio da União estima que existam 521 mil imóveis que estão cadastrados em terrenos marinhos, fora os que não estão cadastrados”.

“Estima-se que haverá impacto em 10 milhões de brasileiros que hoje não têm segurança jurídica sobre seus bens”, disse Flávio.