Os pecados do governo Lula na articulação com o Congresso, segundo políticos e especialistas


Parlamentares e cientistas políticos apontam a necessidade de reformulação do núcleo central de articulação do governo Lula. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O governo acumula derrotas no Congresso Nacional que colocam em dúvida a capacidade do Palácio do Planalto de sustentar o avanço de agendas caras aos seus eleitores.

Na última reunião conjunta de deputados e senadores, o parlamento decidiu derrubar vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), incluindo a Lei Saidinhas e uma emenda patrocinada pela extrema direita que impede gastos com ações alinhadas à agenda aduaneira. .

Além da eleição do Poder Legislativo mais conservador desde a redemocratização, a articulação política do governo tem cometido erros, segundo especialistas e parlamentares.

Citam a omissão de Lula nas negociações com o Congresso, falhas na comunicação, falta de espaço para outros partidos que não o PT no núcleo de coordenação central e descumprimento de acordos.

“Cenário adverso”

Especialistas dizem que o contexto atual do Congresso – com maioria de direita enfrentando um governo de esquerda e emendas parlamentares sobre pagamentos obrigatórios – garante um cenário adverso, que o governo agrava com erros de articulação.

“É um Congresso mais conservador e os parlamentares querem o controle de fatias cada vez maiores do orçamento. Naturalmente seria uma articulação mais reativa, mas mesmo esse modelo reativo não está funcionando”, afirma a cientista política Beatriz Rey, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP).

Professor de ciência política da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP), Cláudio Couto destaca que um dos motivos centrais das dificuldades do governo é uma “certa omissão” de Lula no dia a dia das negociações.

“Nosso presidencialismo exige do presidente uma atuação mais ativa na coordenação das negociações e Lula tenta transferir isso para terceiros. É diferente do que ele fez em seus primeiros mandatos. Talvez o presidente não tenha mais paciência, mas um dos ossos do trabalho é conversar com deputados e senadores”, afirma.

Especialistas avaliam que Lula poderia abrir espaço para outros partidos no núcleo central da articulação, hoje formado por petistas.

“Se o Congresso se inclina para a direita, o coordenador político tem que estar mais próximo dessa ideologia, tem que ter mais contato com esse grupo”, afirma Beatriz.

Fragmentação partidária

Couto explica que os partidos internamente estão mais fragmentados em comparação aos dois primeiros mandatos de Lula, outro ponto que dificulta a relação. Assim, grupos de partidos com ministros, como União Brasil, PP e Republicanos, têm grupos mais à direita que não votam com o governo mesmo com espaço na Esplanada.

“O governo opta por ter o apoio de uma parcela das bancadas. É uma estratégia de redução de danos, porque, sem dar espaço nos ministérios, o governo correria o risco de ter os partidos completamente na oposição”, afirma.

Para o professor, a ausência do presidente dificulta o trabalho do ministro Alexandre Padilha, que já enfrenta dificuldades por não conversar com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que opta por conversar com os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Fernando Haddad (Fazenda).

“É positivo ter o apoio dos ministros em temas de interesse de suas pastas, mas eles não podem substituir o ministro coordenador. Padilha está arrasado porque o presidente não agiu. O ministro não tem autoridade para tomar determinadas decisões e acaba sendo reprovado por outros colegas”, afirma Couto.

“Cortar dói”

A cientista política Beatriz Rey também avalia que o governo erra ao apostar em frentes de articulação – via Padilha, Rui, Haddad. Na opinião do pesquisador, esse modelo “fatiado” propicia ações desarticuladas e prejudica a credibilidade do articulador principal.

“Não adianta fazer reuniões e cobrar ministros que representam partidos de base se há uma confusão, com vários na frente da articulação, com um articulador só [Padilha] sem trânsito com todos os grupos”, afirma.

Beatriz afirma que a articulação dividida começa a resultar em dificuldades de aprovação da agenda econômica que o governo usa como argumento para rebater as críticas à articulação.

O pesquisador cita as idas e vindas até a aprovação do “imposto da blusa”, projeto de lei que prevê taxação de compras internacionais de até US$ 50, e as críticas de parlamentares populares à medida provisória que limita as possibilidades das empresas utilizar créditos de PIS e de Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) decorrentes do pagamento desses tributos. O governo adotou a limitação para compensar os recursos destinados ao alívio da folha de pagamento em 17 setores.

Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutor em Ciência Política, Adriano Oliveira discorda das avaliações de que Lula está ausente da articulação.

“Se ele está sempre envolvido nas negociações políticas, tira a força dos ministros. Como o presidente tem a palavra final, se os outros líderes não conseguirem chegar a um acordo, ele ficará preso. A participação gradual é adequada”, afirma.

Oliveira também acredita que Lula poderia abrir espaço para mais partidos no núcleo central da articulação. “Outros partidos veem o PT como detentor do monopólio de todas as decisões do governo. Na verdade, isso dificulta a negociação”, diz ele.

Para Oliveira, Lula tem razão em priorizar a agenda econômica no Congresso. “O lulismo é um fenômeno econômico, se for para o debate moral, vai perder a eleição e perder apoio no Congresso”, afirma.

Movimento no Planalto

Após as derrotas na sessão do Congresso, Lula se reuniu nesta segunda-feira (3) com o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais), responsável pela articulação política, e com os três líderes do governo: José Guimarães (PT-CE), Câmara; Randolfe Rodrigues (AP), Senado; e Jaques Wagner (PT-BA), no Congresso.

Após a reunião, a equipe de articulação destacou a vitória na manutenção do veto ao trecho da LDO que impôs cronograma de pagamento de emendas parlamentares e tentou minimizar as derrotas, creditadas às pautas habituais, nas quais o Planalto sabe que é minoria no Congresso.

Padilha disse aos jornalistas que até o momento o governo “não está derrotado no que é essencial”, principalmente na agenda econômica – ele aprovou o novo marco fiscal e a reforma tributária no ano passado.

O ministro declarou que Lula decidiu retomar as reuniões semanais para avaliar o andamento das votações e que, se necessário, realizará reuniões com líderes e vice-líderes de partidos aliados.

A cada período de dificuldade no Congresso, as promessas do presidente de contato mais frequente com os parlamentares são recicladas desde o início do governo, há um ano e meio. Contudo, os aliados de Lula admitem reservadamente que ele não está mais disposto a realizar o tipo de reuniões que realizou nos mandatos anteriores (2003-2010).

Nos últimos meses, para ampliar o contato com os parlamentares, Lula adotou uma rotina rotineira para os presidentes: convidar deputados e senadores para acompanhá-lo em viagens aos estados desses políticos.